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Memória ou Lembrança? - Uma tentativa de análise de “Funes, o memorioso”, de Jorge Luis Borges


Elaborado por Janete Campos e Aida Loebenberg



São apenas imagens colhidas com extraordinária rapidez, dispostas como em compartimentos, onde admiravelmente são extraídas pela lembrança.
Santo Agostinho, “Confissões”, Livro X, 9



Nada do que foi ouvido pode ser devolvido pelas mesmas palavras.
Plínio, o velho, “Naturallis Historia”,
Livro VII, capítulo XXIV




Recordar - trazer à memória, lembrar-se.
Lembrar - recordar-se.
Memória - capacidade de lembrar; recordação.

A circularidade das definições fornecidas pelo dicionário Houaiss nos remete à quantidade de vezes que essas mesmas palavras estão presentes em “Funes, o memorioso”, de Jorge Luis Borges[1]. Já a primeira palavra após o título é “recordo”, com o narrador em 1ª pessoa questionando o seu “direito de pronunciar esse verbo sa-grado, (pois) só um homem na Terra teve esse direito e esse homem morreu”. Este “homem” é Funes, personagem sobre quem versa o conto, um “compadrito de Fray Bentos”, mas também um “Zaratustra xucro e vernáculo” como o poeta uruguaio[2] Pedro Leandro Ipuche o teria nomeado.

Recordar é a forma que nosso narrador encontra para cumprir uma tarefa a ele solicitada: escrever sobre uma pessoa que conheceu em sua juventude e que se destacava em meio aos demais moradores de um lugarejo uruguaio que faz fronteira com a Argentina[3]. Para abordar o passado no tempo presente, acompanhamos inicialmente nosso narrador recordando alguns detalhes de (ou sobre) Funes: “segurando uma sombria flor-da-paixão”[4], da “cara de índio taciturna e singularmente remota, atrás do cigarro”; de “suas mãos afiladas de trançador”; “de uma cuia de mate”, “na janela da casa uma esteira amarela, com uma vaga paisagem lacustre” e “claramente a voz dele”. O mesmo verbo ainda aparecerá mais adiante, para recordar “a bombacha, as alpargatas (...) o cigarro no duro rosto” e “a impressão de incômoda magia que a notícia (do acidente de Funes) produziu em mim”. Por nove vezes a palavra “recordo” aparece como uma ação do narrador, enquanto em apenas duas ocasiões o mesmo verbo é usado como uma ação do nosso memorioso: “recordava nosso encontro, infelizmente fugaz, ‘do dia 7 de fevereiro do ano 84’” e “Funes não apenas se recordava de cada folha de cada árvore de cada morro, mas ainda de cada uma das vezes que a tinha percebido ou imaginado” — duas recordações precisas de nosso herói em face às nove recordações vagas do narrador.

O segundo parágrafo do conto começa com o narrador lembrando a primeira vez que encontrou Funes, quando ele e seu primo voltavam da estância de São Francisco a cavalo, tentando escapar de um temporal, e Funes precisou o horário (“faltam quatro minutos para as oito”) e o nome completo do primo questionador. Ao relembrar o episódio, o narrador se diz “tão distraído que o diálogo não teria chamado (sua) atenção se não o tivesse repisado (seu) primo”. É também um cavalo, na mesma estância de São Francisco, o pilar da mudança na vida de Funes: ao ser derrubado, fica paralítico e passa a ter uma memória prodigiosa, capaz de perceber 

todos os brotos e cachos e frutos que uma parreira possa conter. Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do dia 30 de abril de 1882 e podia compará-las na lembrança com os veios de um livro em papel espanhol que ele havia olhado uma única vez e com as linhas de espuma que um remo levantou no rio Negro na véspera da Batalha de Quebraço,

Essa “percepção e memória infalíveis” são diametralmente opostas às do narrador, que além de se chamar distraído e de questionar se pode usar o verbo recordar, ainda coloca que não vai “tratar de reproduzir as palavras dele (Funes), irrecuperáveis agora” e que prefere “resumir com veracidade as muitas coisas que Ireneu (...) disse”. Talvez seja o momento de levantarmos alguns pontos que aproximam e/ou distanciam Funes e o narrador.

Funes é um excelente exemplo de memória. Mesmo antes do acidente ele já tinha um certo “algo a mais” que a maioria das pessoas, sendo capaz “de saber sempre a hora, como um relógio” e da “sua memória dos nomes próprios”. Apesar disso, após o acidente o próprio Funes julgava que anteriormente era “um cego, um surdo, um aturdido, um desmemoriado”, que durante “dezenove anos tinha vivido como quem sonha”, Para ele, o acidente quase foi um milagre, pois então “sua percepção e sua memória (se tornaram) infalíveis”, chegando a declarar: “eu sozinho tenho mais lembranças do que terão tido todos os homens desde que o mundo é mundo”, Mas, na verdade, Funes “acumula” informações, quase sendo possível um paralelo com um HD de computador, isto é, o cérebro de Funes seria um aparelho capaz de armazenar quantidades cada vez maiores de informação pura. Além de guardar detalhes de qualquer imagem que visse, ele “tinha aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim”. Ele citava os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis historia, de Plínio, e “se maravilhava de que tais casos pudessem maravilhar”, pois para Funes sua memória era algo natural, nada que pudesse fazer dele “um precursor dos super-homens”, como teria sugerido Pedro Leandro Ipuche[5]. Aliás, o próprio Funes afirma que “minha memória, senhor, é como um monte de lixo”, muitas e muitas informações guardadas em estado puro, sem processamento, pois Funes é incapaz de condensar e selecionar essas informações. Ele se furta até ao sono, pois, para ele, “dormir é distrair-se do mundo”. Ele é “o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente preciso”. Como comenta o historiador Antonio Mitre: 

no cabe duda que Ireneo lleva ventaja en aquello que ha sido, desde siempre, la ambición de todo historiador: la fijación y el registro exhaustivo del acontecimiento singular.[6]

Mas o mesmo Mitre questiona a validade dessa “ambição”: 

la historia de Funes el memorioso contada por Jorge Luis Borges, es el más perfecto ejemplo de una vasta memoria replicante que, convertida en espejo, pierde su capacidad de abstracción y, en una suerte de amnesia al revés, pulveriza la noción de sujeto e imposibilita la comprensión del pasado.[7]

Em compensação nosso narrador tem lembranças, recordações. Como a maioria das pessoas, seu cérebro é como o “bloco mágico” que Freud compara ao nosso aparelho mental: conta com uma camada que recebe os estímulos, mas nem todos estes estímulos formam traços permanentes em nosso cérebro[8]. Como as demais pessoas, nosso narrador tem lembranças do que viveu, mas lembranças que são esquecidas e, subsequentemente, reelaboradas, como os sonhos são reelaborados a partir do material dos pensamentos oníricos, com deslocamentos e condensações. O narrador precisa que seu primo “repise” o diálogo ocorrido no seu primeiro encontro com Funes como auxílio à sua memória, assim como quando seu primo conta sobre o acidente com o cavalo, o narrador comenta que “o fato, na boca de meu primo Bernardo, tinha muito de sonho elaborado com elementos anteriores”. Como as demais pessoas, nosso narrador reflete, questiona e tira conclusões sobre os fatos presenciados e/ou que ouviu serem contados. Nosso narrador pensa. Ao mesmo tempo levanta dúvida se Funes teria essa mesma capacidade: “Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo entulhado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos”. O narrador parece dizer que Ireneo é incapaz do movimento intelectivo que os seres humanos “comuns” fazem ao resgatar uma memória. Devemos lembrar que conhecimento não significa inteligência. O conhecimento se adquire por meio de in-formações, seja por experiências vividas pelo sujeito, seja por estudos. Já a inteligência é a capacidade de raciocínio lógico, de interpretação de informações. Quando o narrador diz que Funes “pensou”, na sequência pontua entre parêntesis “sentiu”, ou seja, para o narrador Funes não pensa, apenas adquire conhecimentos por meio dos sentidos, daquilo que é sensível. 

O que corrobora esta visão pode ser verificado nas páginas 106 e 107, quando o narrador questiona o novo método de numeração proposto por Funes, dizendo que não havia conexão entre os termos que ele utilizava para contar e que o sistema numérico tradicional era um sistema ordenado de forma lógica. Conclui o narrador que “Funes não me entendeu ou não quis me entender”.

Um pouco mais adiante, o narrador diz que Funes “era quase inca-paz de ideias gerais, platônicas”. Aqui podemos citar a diferença filosófica entre o conceito de ideias gerais e ideias específicas — para Platão as ideias gerais são aquelas que pertencem ao mundo inteligível, ao Mundo das Ideias; esta sua teoria (que pode ser vista de modo completo em seu Diálogo Fédon[9]) diz, de modo geral, que temos em nossa mente uma ideia geral de todas as coisas, uma espécie de “modelo padrão”. Quando alguém nos diz “cadeira”, este modelo já vem à nossa mente; porém, se o modelo que vemos não é o mesmo que está em nossa mente, mesmo assim é possível reconhecermos uma cadeira por causa deste modelo padrão. O narrador explica a dificuldade de Funes de entender o “símbolo genérico cachorro”, que pode ser explicado pelo modelo platônico do mundo das ideias. Podemos dizer que para Funes haviam apenas as ideias específicas, os detalhes. Apenas isto entrava em sua mente. Se para o narrador “pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair”, levando em consideração as ideias platônicas, para se chegar a uma ideia específica, é necessário primeiro abordar as ideias gerais, os princípios que regem o universo, o cosmos para, a partir deles, especificar os problemas humanos; tudo isto envolve um movimento intelectivo e não apenas o acesso a informações armazenadas.

Memória ou lembrança? Conhecimento ou inteligência? Em qual destes conceitos nosso ilustre e “cronométrico” Ireneo Funes se enquadra? Ou não se enquadra em nenhum? Nosso narrador dá pistas, mas conclui dizendo apenas que ele “morreu em 1889, de uma congestão pulmonar”. Talvez deixe para nós a avaliação desta “implacável memória” que um dia pode conhecer.

NOTAS:
 1 BORGES, Jorge Luis (s/d). FUNES, O MEMORIOSO. IN Ficções (1944). São Paulo: Companhia das Letras, 3ª reimpressão. Todas as citações da referida obra doravante serão marcadas apenas pelo sobrenome do autor, seguido da página onde se encontra o fragmento, de acordo com esta mesma edição. Ex.: Borges, p. 99.
2 Fonte: http://www.biografiasyvidas.com/biografia/i/ipuche.htm.
3 Fonte: http://es.wikipedia.org/wiki/Fray_Bentos.
4 Flor-da-paixão ou flor do maracujá que, na crença geral, foi criada para per-petuar a lembrança do sacrifício de Jesus no calvário. (Fonte: http://www.jardimdeflores.com.br/CURIOSIDADES/A34nomemaracuja.htm)
5 “Super-homem” é um termo originado do alemão Übermensch, descrito no livro Assim falou Zaratustra, do filósofo Friedrich Nietzsche, em que explica-se os passos através dos quais um homem pode se tornar um “super-homem” (homos superior).
(Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Super_Homem_(filosofia))
6 MITRE, Antonio (2001). HISTORIA: MEMORIA Y OLVIDO. IN Historia y Cultura, no 27 Noviembre, Sociedad Boliviana de Historia, p.04.
(Fonte: http://www.cholonautas.edu.pe/modulo/upload/Mitre.pdf)
7  Op. Cit. p.03
8 FREUD, Sigmund (1925[1924]). UMA NOTA SOBRE O BLOCO MÁGICO. IN O ego e o ID e outros trabalhos. Edição Standard Brasileira, Vol. XIX, IMAGO Editora.
9 Platão, Fedão
(Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000031.pdf).

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