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Características da arte moderna no início do século XX e suas ressonâncias no modernismo brasileiro


Incômoda, estranha e nauseante. Desfigurada, surpreendente e desumanizada. Estes e vários outros adjetivos da mesma natureza podem ser utilizados para "definir" a arte produzida no início do século XX. Por vezes chocante e extremamente provocativa, a Arte Moderna surge como uma resposta ou mesmo um questionamento - muitas vezes não compreendido - a um mundo onde o ser humano procurava fazer de si mesmo a referência e o modelo de todas as coisas. A perspectiva é destruída; o retratismo não tem mais lugar; o ser humano, dividido e fragmentado, já não consegue reconhecer-se e percebe que não pode mais considerar-se como medida de todas as coisas. Esta fragmentação do ser humano pode ser compreendida se levarmos em conta as três feridas narcísicas de que fala Freud: 1) A Terra não é o centro do universo (conf. Copérnico e Galileu); 2) A teoria do evolucionismo de Darwin; 3) A psicanálise e os estudos do próprio Freud, que declara que "o ego não é senhor em sua própria casa". Estas feridas mexem profundamente com o ser humano, fazendo com que a visão antropocêntrica não faça mais sentido ou que, ao menos, não seja a única lente com a qual se deva enxergar o mundo.

No campo das artes, não há mais o interesse em identificar o objeto real com seu retrato; o que é levado em conta são as formas, a estética, "a arte pela arte". As referências são relativizadas e não há mais valores seguros, por isso a arte se apega a si mesma. À desconstrução das formas, seguem-se também outras novas concepções, principalmente no campo da literatura: a perda da perspectiva gera perda de continuidade, eliminando a sucessão temporal e destruindo o espaço; as emoções são relativizadas; o senso comum é desmascarado. Segundo Anatol Rosenfeld, "a dificuldade que boa parte do público encontra em adaptar-se a este tipo de pintura ou romance decorre da circunstância de a arte moderna negar o compromisso com este mundo empírico das 'aparências', isto é, com o mundo temporal e espacial posto como real e absoluto pelo realismo tradicional e pelo senso comum". Já para Ortega y Gasset, esta "impopularidade", para utilizar um termo do próprio crítico, se deve ao fato de que esta nova arte divide as pessoas em duas classes: "os que a entendem e os que não a entendem". E Ortega continua: "A nova arte, pelo visto, não é para todo mundo, como a romântica, e sim vai desde logo dirigida a uma minoria especialmente dotada". Concordando ou não com este autor, o fato é que até hoje esta arte ainda é incompreendida e criticada por muitos.

Já no Brasil, o modernismo começa a dar sinais no período chamado Pré-Modernismo, que vai do início do século XX até a Semana de Arte Moderna, de 1922, onde as obras começavam a destoar das tendências oitocentistas, mesmo que ainda fossem herdeiras desta. A partir desta semana, que aconteceu entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, os modernistas tentaram romper com as formas tradicionais de arte que se perpetuavam há muito tempo. As iniciativas de renovação artística começaram no início do século XX, como por exemplo com a polêmica exposição de Anita Malfatti. Podemos dizer que a Semana de Arte Moderna deu início a uma "fase heroica" no modernismo brasileiro, com sua "estética da reação" (para utilizar uma expressão de Ronald de Carvalho); foi influenciada pelas vanguardas europeias e se caracterizou por sua rebeldia e por romper com a arte tradicional.

O modernismo no Brasil se apresentou em fases. Na primeira, a principal preocupação era a defesa da liberdade temática, o nacionalismo cultural e linguístico. Desta fase podemos destacar Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Manuel Bandeira. A segunda fase, herdeira das rupturas ocorridas na primeira, buscou retomar os elementos da tradição literária e mergulhou por outros temas, como o aprofundamento sobre a própria poesia, novas formas de representar o amor, a morte e o tempo. Podemos destacar deste período Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, entre muitos. Há também os chamados "poetas da Geração 45", ou terceira fase do modernismo, como alguns autores a chamam. Alguns consideram conservadora a produção deste período. Muitos movimentos apareceram neste período, como a arte concreta. Podemos citar deste período Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto, entre outros.

(Texto escrito por mim em junho/2010).

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