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O Romantismo e a Religiosidade em "Cântico do Calvário" de Fagundes Varela

Segue minha análise do poema "Cântico do Calvário", de Fagundes Varela, apresentada para conclusão da disciplina de Literatura Brasileira III do curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Reflexões e análise
Dono de uma personalidade dualística, Luís Nicolau Fagundes Varela despertou e desperta em seus críticos e leitores sentimentos também dualísticos. Como poeta do Romantismo brasileiro, pertence à segunda geração, porém também apresenta características da terceira. Em sua vida e obra é possível ver os traços marcantes dos poetas deste período: era boêmio, inquieto, foi vítima do álcool e morreu jovem, com apenas 33 anos de idade; passou também por um período em que o espírito religioso tomou conta de sua construção poética, como é o caso do poema em questão, Cântico do Calvário, escrito em um período de profundo sofrimento após a perda de seu primogênito que contava apenas com 3 meses de vida.
Sobre seus críticos pode-se dizer que não eram unânimes quanto à importância de Fagundes Varela para o cenário literário brasileiro, como diz Orna Messer Levin na introdução da obra Cantos e Fantasias e Outros Contos, organizado pela autora:
No quadro geral da poesia brasileira, Fagundes Varela (1841-18750) ocupa uma posição de trânsito situando-se ao lado da segunda geração romântica, em relação à qual foi visto ora como um mero seguidor, ora como crítico, consciente dos excessos e desgastes da lírica sentimental e cujo mérito maior teria sido o de preparar o caminho para os vôos elevados da poesia condoreira.
E sobre a obra do autor, diz Levin:
(...) podemos reconhecer a irregularidade do poeta, nem sempre feliz nas escolhas, entregue a uma sentimentalidade crônica. Sobressai, no entanto, o aspecto polivalente de sua escrita, que evolui de maneira desigual, avançando e retrocedendo com passos e contrapassos.
A unanimidade da crítica se dá apenas em relação ao poema em análise neste trabalho. Sobre ele, dizem os críticos ser um dos mais belos poemas da literatura brasileira, concordando também que é o mais célebre de Fagundes Varela. Diz Manuel Bandeira:
(...) uma das mais belas e sentidas nênias da poesia em língua portuguesa. Nela, pela força do sentimento sincero, o poeta atingiu aos vinte anos uma altura que, não igualada depois, permaneceu como um cimo isolado em toda a sua poesia.
Se o Romantismo é “o primado exuberante da emoção, imaginação, paixão, intuição, liberdade pessoal e interior” como diz Vagner Camilo, temos então em Cântico do Calvário uma obra romântica por excelência. O filho falecido é apresentado por meio de um léxico sublimizante já nos primeiros versos: pomba, estrela, messe, idílio, glória, inspiração e pátria. Nesta mesma estrofe, alguns versos podem ser analisados sob a perspectiva bíblica, como os versos de 1 a 3:
Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança.
Estes versos podem ser vistos como referência ao Dilúvio, narrado no livro do Gênesis (capítulo 7, versículos de 1 a 14). Após as chuvas pararem, Noé deseja saber se as águas já baixaram e solta um corvo e uma pomba para fora da arca. O corvo, que faz seu ninho nos altos picos das montanhas volta para a arca, e a pomba, que não encontra lugar para pousar as patas também retorna. Após sete dias, Noé envia novamente a pomba que retorna à arca com um ramo novo de oliveira no bico, sinal de que a vida poderia ser reiniciada.
Continuando nesta estrofe, podemos notar o que pode ser mais uma referência bíblica nos versos 3, 4 e 5:
Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho para o pegureiro
De acordo com o Evangelho de Mateus (capítulo 2), que narra a visita dos magos à Jesus; vindos do oriente eles seguem uma estrela e chegam ao local de nascimento do Menino. Também em relação ao termo “pegureiro”, que segundo o Houaiss quer dizer “pastor”, pode referir-se ao Evangelho de Lucas; quando o evangelista narra o nascimento de Jesus no capítulo 2, versículos de 8 a 12, fala de pastores que estavam nos campos das proximidades da manjedoura e que foram avisados por anjos sobre o nascimento.
Porém, opondo-se à imagem sublimada do filho, há uma quebra da sequência harmônica, como diz Levin, e que enfatiza a fatalidade das ações:
Pomba – varou-te a flecha do destino!
Astro – engoliu-te o temporal do norte!
Teto – caíste! – criança, já não vives!
Orna Levin faz uma ótima reflexão a respeito desta quebra:
A síntese decorrente da justaposição de imagens fortes de queda tenta reproduzir o efeito da interrupção abrupta da energia vital ascendente, ao qual o fluxo das metáforas iniciais aludia. A morte, uma vez reproduzida enquanto corte, deixa de ser apenas marca de uma existência física interrompida para se configurar como um motivo de reflexão poética, permitindo que o autor passe em revista a própria ideia de inspiração.
Não temos nestes versos um simples transbordamento de sentimentalismo, da dor de um pai que acaba de perder seu filho e procura desabafar do modo que lhe parece melhor. A angústia, a tortura e a dor da ausência do ser amado transforma-se em força motora na criação de uma elegia, onde a estética romântica atinge seu auge, não apenas nas metáforas mas também no encadeamento dos versos e no jogo sintático utilizados pelo poeta.
Seguindo esta linha de reflexão, vale também destacar os versos 21 a 25:
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!
Estrelas do sofrer – gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! – Sede benditas!

Refletindo sobre a importância da Natureza para o poeta romântico, Camilo diz que ela “converte-se em palco de confissões e lamentos da alma ferida”. É o local de encontro do poeta consigo mesmo, seu locus amenus espiritual, onde chora e lamenta aquilo de que foi privado. Nos versos acima as palavras noite e ermos são muito utilizadas neste período como metáfora de sofrimento, de obscuridade em relação aos sentimentos. Mas é como se para Varela houvesse uma esperança. Apesar de dizer que os fachos da noite estão mortos para ele, o poeta também acredita que as lágrimas santas o ajudarão a caminhar no ermo. Voltando à Bíblia, no livro do profeta Isaías, capítulo 45, versos de 1 a 8, temos a narração da profecia sobre Ciro, rei persa, que marchou vitoriosamente sobre a região do Oriente Médio por volta do ano 538 a.C. Iahweh chama Ciro de “seu ungido” criando assim um paradoxo, já que este epíteto é utilizado aqui para nomear um soberano estrangeiro que não conhece a Iahweh. O fato é que nos versos finais deste trecho bíblico, temos Iahweh dizendo que tudo criou, luz e trevas, que assegura o bem-estar e a desgraça; ordena ainda que o orvalho desça dos céus e que da terra brote a felicidade.
A felicidade de Fagundes Varela em ser pai pode ser mensurada nos versos 82 a 87:
Quando fitei teus olhos sossegados,
Abismos de inocência e de candura,
E baixo e a medo murmurei: meu filho!
Meu filho! frase imensa, inexplicável,
Grata como o chorar de Madalena
Aos pés do Redentor...
A metáfora utilizada pelo poeta adquire uma força grandiosa se observarmos o trecho bíblico que nos conta a história de Maria Madalena, ou Maria de Magdala como também é conhecida. No Evangelho de Lucas, Maria, chamada Madalena é aquela de cujo corpo haviam sido expulsos sete demônios. Ela pertencia ao grupo das mulheres que acompanhavam Jesus e seus apóstolos e aparece no capítulo 8 deste evangelho, versos de 1 a 3. É uma personagem de grande importância na narrativa sobre a paixão e morte de Jesus Cristo, tanto que é mencionada nos três Evangelhos sinóticos – Mateus, Marcos e Lucas – e também no Evangelho de João. Esteve aos pés da cruz juntamente com Maria, a mãe de Jesus. Mas por que o poeta diz “grata como o chorar de Madalena aos pés do Redentor”? Há um discurso muito comum que atribui a Maria Madalena a passagem da prostituta que é perdoada por Jesus no capítulo 7, versículos 36 a 50 do Evangelho de Lucas, porém não há nenhuma menção ao nome desta mulher que “demonstrou muito amor”; neste trecho Jesus diz a Simeão: “(...) seus numerosos pecados lhe serão perdoados porque ela demonstrou muito amor. Mas aqueles a quem pouco foi perdoado mostra pouco amor”. Na sequência bíblica vemos a referência a “Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios” (Lucas cap. 8, vers. 2); é senso comum entre os estudiosos da bíblia que as doenças e possessões demoníacas eram vistas pelos judeus como punição pelos pecados cometidos; este pecado poderia ter origem no próprio enfermo ou em algum de seus antepassados – consideravam que o pecado era transmitido para as gerações seguintes –, o que fazia de Madalena uma pecadora grave, pois não foi apenas um demônio que saiu de seu corpo e sim sete! E ela demonstra tanto amor que segue Jesus até sua cruz, o momento em que até os seus discípulos, exceto João, o abandonam por medo de sofrer a mesma condenação; chora a perda do Mestre, aquele que lhe devolveu a dignidade. Vale destacar também que Madalena foi a mensageira da ressurreição de Jesus para os discípulos.
Estes versos que se referem a Madalena podem, partindo de uma livre interpretação dos fatos, ser um sinal do arrependimento do poeta, cuja vida foi desregrada do ponto de vista da moral da sociedade de sua época, fortemente marcada por valores cristãos-católicos. Talvez o nascimento do filho tenha tocado de tal forma Varela que ele realmente se sentiu uma Madalena aos pés do Redentor. Friso aqui a palavra Redentor. O poeta poderia ter escrito “aos pés de Jesus”, mas prefere utilizar o termo “Redentor” talvez porque acredite que ele realmente possa redimir os pecados. Não há muitos textos para embasar esta perspectiva, mas vale destacar o que diz Orna Levin quando fala sobre a obra Anchieta:
(...) o fato é que seu vício se incorporou ao imaginário dos leitores, e nem o domínio dos processos poéticos que demonstra nesta redação, nem a erudição bíblica, quiçá motivada pela necessidade de uma reconciliação pela fé, atenuaram-lhe a imagem degradante de poeta alcoolizado e sem rumo. Na tentativa de restaurar a má fama e divulgar a conversão do irmão, Ernestina Varela dedicou-se a reunir os esparsos de Cantos religiosos (1868) e transferir a ênfase crítica para o veio místico que atravessa a religiosidade romântica de sua obra.
Podemos encontrar várias outras referências religiosas e bíblicas em Cântico do Calvário que mereceriam uma análise mais aprofundada, incluindo as que aqui já foram abordadas. O próprio título do poema é uma referência direta ao Calvário de Jesus Cristo (Lucas cap. 23, vers. 26 a 32), cujo cântico entoado só pode ser de dor e lamento, assim como o cântico do poeta.
Cabe um último destaque para os quatro versos finais do poema:
Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh’alma.
Temos uma referência explícita à escada que aparece no sonho de Jacó, narrada no livro do Gênesis, capítulo 28, versículos 10 a 22. Após reclinar a cabeça sob uma pedra, Jacó adormece e em sonho vê uma escada que se ergue da terra e cujo topo atingia o céu. Por ela os anjos de Deus subiam e desciam. Neste mesmo sonho, Iahweh aparece diante de Jacó, também chamado de Israel e dá a ele e sua descendência aquela terra. A escada de Jacó é vista por muitos biblistas como uma prefiguração da morte: por ela os anjos descem e por ela devem os homens subir ao encontro da vida eterna. Com certeza a escolha desta imagem sublimada da morte, não foi à toa para fechar o poema. Se de fato ele se converteu ou se apenas escreveu o poema movido por um profundo sentimento de dor pela perda do filho amado, pode-se perceber nestes versos finais a esperança de salvação que toca o poeta e que o faz crer que reencontrará o filho que já está nos braços do Criador naquele momento do qual nenhum ser humano poderá se livrar: a morte.


Referências bibliográficas
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2003.
CAMILO, Vagner. Revisão, atualização e atualidade do Romantismo(apostila). São Paulo: CENP/SEE/USP (Fund. Vanzolini), 2003.
HOUAISS, Antonio. Mini Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
LEVIN, Orna Messer (org.). Introdução. Cantos e fantasias e outros contos. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Cântico do Calvário

Segue abaixo o poema "Cântico do Calvário", de Fagundes Varela.

Minha análise apresentada para a disciplina de Literatura Brasileira III, do curso de Letras da USP.

Cântico do Calvário

À Memória de Meu Filho
Morto a 11 de Dezembro de 1863.



Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. – Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória – a inspiração – a pátria,
O porvir de teu pai! – Ah! no entanto,
Pomba – varou-te a flecha do destino!
Astro – engoliu-te o temporal do norte!
Teto – caíste! – criança, já não vives!

Correi, correi, ó lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
Correi! Um dia vos verei mais belas
Que os diamantes de Ofir e de Golgonda
Fulgurar na coroa de martírios
Que me circunda a fronte cismadora!
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!
Estrelas do sofrer – gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! – Sede benditas!
Ó filho de minh'alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!
Quando as garças vierem do ocidente
Buscando um novo clima onde pousarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!
Não mais invocarei a musa errante
Nesses retiros onde cada folha
Era um polido espelho de esmeralda
Que refletia os fugitivos quadros
Dos suspirados tempos que se foram!
Não mais perdido em vaporosas cismas
Escutarei ao pôr do sol, nas serras,
Vibrar a trompa sonorosa e leda
Do caçador que aos lares se recolhe!

Não mais! A areia tem corrido, e o livro
De minha infanda história está completo!
Pouco tenho de andar! Um passo ainda
E o fruto de meus dias, negro, podre,
Do galho eivado rolará por terra!
Ainda um treno, e o vendaval sem freio
Ao soprar quebrará a última fibra
Da lira infausta que nas mãos sustenho!
Tornei-me o eco das tristezas todas
Que entre os homens achei! O lago escuro
Onde ao clarão dos fogos da tormenta
Miram-se as larvas fúnebres do estrago!
Por toda a parte em que arrastei meu manto
Deixei um traço fundo de agonias!...

Oh! quantas horas não gastei, sentado
Sobre as costas bravias do Oceano,
Esperando que a vida se esvaísse
Como um floco de espuma, ou como o friso
Que deixa n'água o lenho do barqueiro!
Quantos momentos de loucura e febre
Não consumi perdido nos desertos,
Escutando os rumores das florestas,
E procurando nessas vozes torvas
Distinguir o meu cântico de morte!
Quantas noites de angústias e delírios
Não velei, entre as sombras espreitando
A passagem veloz do gênio horrendo
Que o mundo abate ao galopar infrene
Do selvagem corcel?... E tudo embalde!
A vida parecia ardente e douda
Agarrar-se a meu ser!... E tu tão jovem,
Tão puro ainda, ainda n'alvorada,
Ave banhada em mares de esperança,
Rosa em botão, crisálida entre luzes,
Foste o escolhido na tremenda ceifa!

Ah! quando a vez primeira em meus cabelos
Senti bater teu hálito suave;
Quando em meus braços te cerrei, ouvindo
Pulsar-te o coração divino ainda;
Quando fitei teus olhos sossegados,
Abismos de inocência e de candura,
E baixo e a medo murmurei: meu filho!
Meu filho! frase imensa, inexplicável,
Grata como o chorar de Madalena
Aos pés do Redentor... ah! pelas fibras
Senti rugir o vento incendiado
Desse amor infinito que eterniza
O consórcio dos orbes que se enredam
Dos mistérios do ser na teia augusta!
Que prende o céu à terra e a terra aos anjos!
Que se expande em torrentes inefáveis
Do seio imaculado de Maria!

Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!
E de meu erro a punição cruenta
Na mesma glória que elevou-me aos astros,
Chorando aos pés da cruz, hoje padeço!

O som da orquestra, o retumbar dos bronzes,
A voz mentida de rafeiros bardos,
Torpe alegria que circunda os berços
Quando a opulência doura-lhes as bordas,
Não te saudaram ao sorrir primeiro,
Clícía mimosa rebentada à sombra!
Mas ah! se pompas, esplendor faltaram-te,
Tiveste mais que os príncipes da terra!
Templos, altares de afeição sem termos!
Mundos de sentimento e de magia!
Cantos ditados pelo próprio Deus!
Ó quantos reis que a humanidade aviltam,
E o gênio esmagam dos soberbos tronos,
Trocariam a púrpura romana
Por um verso, uma nota, um som apenas
Dos fecundos poemas que inspiraste!

Que belos sonhos! Que ilusões benditas!
Do cantor infeliz lançaste à vida,
Arco-íris de amor! Luz da aliança,
Calma e fulgente em meio da tormenta!
Do exílio escuro a cítara chorosa
Surgiu de novo e às virações errantes
Lançou dilúvios de harmonias! – O gozo
Ao pranto sucedeu. As férreas horas
Em desejos alados se mudaram.
Noites fugiam, madrugadas vinham,
Mas sepultado num prazer profundo
Não te deixava o berço descuidoso,
Nem de teu rosto meu olhar tirava,
Nem de outros sonhos que dos teus vivia!

Como eras lindo! Nas rosadas faces
Tinhas ainda o tépido vestígio
Dos beijos divinais, – nos olhos langues
Brilhava o brando raio que acendera
A bênção do Senhor quando o deixastes!
Sobre o teu corpo a chusma dos anjinhos,
Filhos do éter e da luz, voavam,
Riam-se alegres, das caçoilas níveas
Celeste aroma te vertendo ao corpo!
E eu dizia comigo: — teu destino
Será mais belo que o cantar das fadas
Que dançam no arrebol, – mais triunfante
Que o sol nascente derribando ao nada
Muralhas de negrume!... Irás tão alto
Como o pássaro-rei do Novo Mundo!

Ai! doudo sonho!... Uma estação passou-se,
E tantas glórias, tão risonhos planos
Desfizeram-se em pó! O gênio escuro
Abrasou com seu facho ensangüentado
Meus soberbos castelos. A desgraça
Sentou-se em meu solar, e a soberana
Dos sinistros impérios de além-mundo
Com seu dedo real selou-te a fronte!
Inda te vejo pelas noites minhas,
Em meus dias sem luz vejo-te ainda,
Creio-te vivo, e morto te pranteio!...

Ouço o tanger monótono dos sinos,
E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!
Escuto em meio de confusas vozes,
Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, – sinto o aroma
Do incenso das igrejas, – ouço os cantos
Dos ministros de Deus que me repetem
Que não és mais da terra!... E choro embalde.

Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela,
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite,
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh'alma.