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Momento num café

Publico aqui parte de meu trabalho de aproveitamento na disciplina Literatura Brasileira I. É uma análise/interpretação do poema "Momento num café", de Manuel Bandeira.


Momento num café

1 Quando o enterro passou
2 Os homens que se achavam no café
3 Tiraram o chapéu maquinalmente
4 Saudavam o morto distraídos
5 Estavam todos voltados para a vida
6 Absortos na vida
7 Confiantes na vida.

8 Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
9 Olhando o esquife longamente
10 Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
11 Que a vida é traição
12 E saudava a matéria que passava
13 Liberta para sempre da alma extinta.


Se “desentranhar” é um termo dominante na poesia de Manuel Bandeira, este poema, retirado de uma cena cotidiana, pode muito bem ser esmiuçado sob esta ótica. Um simples cortejo sendo observado por homens num café, algo que passa tão despercebido numa grande cidade, toma uma dimensão metafísica, com um profundo sentimento de interioridade, onde pode-se pensar sobre a dualidade vida / morte.
Mas, se o assunto de que trata o poema é o enterro, porque seu título não remete a este fato? Será mesmo que o enterro é o cerne do que o poeta quis retratar nestes versos?
O título Momento num café traz à tona o ambiente da rua, de onde Bandeira busca inspiração para grande parte de sua obra. Das coisas mais banais do dia-a-dia é que nasce sua surpreendente reflexão sobre temas tão caros ao ser humano. Neste poema ele se põe como observador dos fatos, como alguém que, mais do que ver a superfície dos acontecimentos, consegue enxergar o movimento de introspecção e – por que não? – meditação do homem acerca da morte. Narra os fatos como num conto ou como quem narra uma história: “Quando o enterro passou”... não há data, não há hora. A cena está suspensa no tempo; utiliza também os verbos no passado para dar esta sensação de fatos já ocorridos, mas sem especificar o “quando”: passou, achavam, tiraram, saudavam, estavam, descobriu, sabia, saudava e passava.
Os três primeiros versos mostram um gesto incomum hoje em dia nos grandes centros urbanos, mas que ainda perdura no interior. Momentos considerados respeitosos como uma refeição, um velório ou mesmo a passagem de um cortejo, são marcados por esta atitude: tirar o chapéu. Mas o que chama a atenção é o advérbio empregado pelo poeta no terceiro verso: maquinalmente; os homens tiram seus chapéus como máquinas, talvez mais por convenção social que propriamente respeito para com o morto. Isso se confirma no quarto verso: Saudavam o morto distraídos. Não há comprometimento, não há nada que una os homens daquele café com o morto que passa. Por que o saudavam distraídos? Podemos tentar responder com os versos cinco, seis e sete. Bandeira enfatiza o termo “vida” repetindo-o três vezes nos últimos três versos desta primeira estrofe:

Estavam todos voltados para a vidaAbsortos na vidaConfiantes na vida.
O poeta procura fixar esta palavra em nossa cabeça ou quer mostrar que naquelas cabeças presentes naquele café não havia espaço para a morte. Todos os pensamentos estavam concentrados e esperançosos na vida. Era apenas mais um morto, mais um entre tantos cortejos. Os verbos no passado também ilustram esse passado que passava diante dos olhos daqueles espectadores.
O que faz com que este enterro não seja apenas mais um entre tantos outros? O que há nesta cena que chama a atenção do nosso narrador? O poeta percebe que há um entre os homens ali presentes que provavelmente não tirou seu chapéu de forma programada.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Mais do que descobrir alguma coisa, o homem se descobriu. Não foi rapidamente, mas num gesto largo e demorado, como o verso do poeta; é como se uma eternidade coubesse no tempo da passagem do esquife. O advérbio longamente, utilizado no verso nove, auxiliado pelo verbo olhar no gerúndio, demonstra de modo claro esta sensação de longevidade, de algo duradouro. Uma fração de segundos que dura o suficiente para que aquele homem perceba um algo a mais naquilo que vê. Ele não é um simples observador e sim participante da cena: o poeta observa o homem que observa o caixão do defunto que passa à sua frente.
Os dois versos que se seguem vão apresentar a palavra vida novamente, não como um termo passivo como nos versos cinco, seis e sete, e sim como um termo carregado de significação em parceria com o verbo ser no presente do indicativo. O homem, personagem da ação sabia que a vida é: 1) uma agitação feroz e sem finalidade; 2) traição. O poeta não utiliza termos dóceis para dar significado à vida. Além de machucar (ser feroz) e não ter um objetivo ou algo a ser alcançado (sem finalidade), a vida é desleal (traição). A morte, apesar de ser a única certeza do ser humano, é um fato do qual não se sabe data e hora, muito menos o que esperar – se é que há algo a esperar – após sua chegada. É traição porque engana o ser humano, não levando em conta seus projetos.
Sabendo desta efemeridade da vida, que passa como o sibilar do vento e do poema, ou que se acaba tão rápido como uma xícara de café, aquele homem saudava, conscientemente, a matéria que passava, matéria que foi liberta para sempre da alma extinta. Além de usar um verbo no particípio, indicando uma ação que está plenamente concluída, o poeta ainda reforça ideia com o para sempre. Não é apenas agora, é ad aeternum.
Este poema e todos os presentes em Estrela da Manhã apresentam um Manuel Bandeira “já liberto do ‘gosto cabotino da tristeza’ e assim desperto para o mundo em torno”, segundo Davi Arrigucci Jr. Sua maestria em retirar da humildade cotidiana o material para sua poesia, de tirar das entranhas dos fatos mais banais aquilo que dará sentido não apenas à sua obra, mas também à sua vida, faz-nos ver como um poeta, vivendo à sombra da morte certa, consegue olhar para ela não com medo, mas com a bravura do herói diante daquilo que deve enfrentar.

10 comentários:

  1. Eu já havia visto antes da entrega!
    E já falei o que achei, ou seja, muito bom.

    o/

    Beijo.

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  2. grande Janete, analisando magistralmente o grande Bandeira.

    muito bom!

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  3. Adorei a análise... dará uma ótima crítica literária =) Tb dei uma olhada nos outros posts... ainda não conhecia o seu blog, está de parábens!!! Beijos.........

    Aline

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  4. Simplesmente fantástica a análise! Parabéns, Janete!

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  5. Que análise!
    Parabéns!! Gostei muito.

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  6. Muito boa análise sra. Janete. Esclarecedora.
    Pena o Ilustríssimo sr. Manoel Bandeira demonstrar seu ateísmo de forma tão explícita. Que o Deus invísivel, o Senhor da Bíblia, tenha compaixão de sua alma.
    Washington. Estudante. Protestante.

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  7. Adorei a análise. Bem objetiva.
    Marcelo Lopes

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  8. Ótima interpretação, parabéns.

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  9. E é engraçado alguém concluir que Bandeira era ateu... o que ele diz não tem nada a ver com a existência ou não de Deus. Nega apenas a existência da alma, o que não é a mesma coisa. Para contrapor, leia-se, por exemplo, dele mesmo, Anunciação, A Anunciação, Versos para Joaquim, Mozart no Céu, Irene no Céu, por aí afora. Pra que pajear o ateísmo alheio? Inclusive, cometendo engano... Por que pena? Eu sou ateu e estou muito bem com isso, aliás, em muito boas companhias...

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  10. Muito boa a análise.
    Vale a pena relacionar os versos
    "E saudava a matéria que passava
    Liberta para sempre da alma extinta."
    com outros dois, também do Manuel Bandeira,
    em que diz:
    "porque os corpos se entendem,
    mas as almas não."
    Chufuli

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