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Meu primeiro ensaio


Hoje decidi colocar algo que eu produzi. Este blog é também de prosa, portanto vou publicar o primeiro ensaio que escrevi por questão da conclusão da disciplina de Estudos Literários no segundo semestre de 2009. O ensaio é baseado no conto "Cortejo em Abril", de Zulmira Ribeiro Tavares e fala sobre o cortejo de Tancredo Neves. Dei o nome ao ensaio de "Mídia, mito e nome em Cortejo em Abril". Segue o dito:

"Ao som de Coração de Estudante, de Milton Nascimento, milhares de brasileiros viram de suas casas a passagem do cortejo daquele que detinha em si, os sonhos e expectativas de um povo; daquele que, mais que um presidente, trazia consigo o epíteto de “homem santo”. Santo ou não, não está mais entre nós, ao pó voltou e ao pó levou as esperanças daqueles que, após terem seus filhos dados como desaparecidos pelos militares, apostavam em um político que nem sequer colaboraram para eleger.
Pode soar estranha a adoração de um povo a um presidente eleito por voto indireto, que mal conheciam e que havia despontado na mídia há pouco tempo, mas olhando para o contexto pelo qual passava o Brasil, há de se entender o motivo de tanta empolgação com a eleição daquele mineiro de São João Del Rei. Havia uma áurea de esperança, algo metafísico e mítico naquela escolha presidencial.
Desde que sua doença se tornou pública, houve muitas contradições nas informações divulgadas pela imprensa, como relata o jornalista Antônio Britto, porta-voz oficial do novo governo, no livro Assim morreu Tancredo. Mas o que o povo sabia? Apenas o que era divulgado pela mídia.
Treze anos após a morte de Tancredo Neves, é possível olhar para o passado e recriá-lo, temperando-o cada um a seu modo, como fez Zulmira Ribeiro Tavares, em Cortejo em Abril.
Desde 1985, 1998 até 2009 é possível observar os efeitos das notícias midiáticas no cotidiano de um povo. Como criar um mito? Muito simples: pegue um cidadão, torne-o popular; adicione um pouco de tragédia com um leve toque de martírio. Leve ao forno, ou melhor, ao povo regado a ótimos jornalistas com o dom da retórica. Está feito!
Parece ser isto o que acontece com Tancredo Neves. Ele era apresentado como aquele que viria para mudar o país, mudar a sorte de uma população marcada por anos de ditadura militar, opressão, falta de voz e ausente de muitos direitos.
O que o povo brasileiro esperava dele? O Consertador de Tudo parece responder a esta pergunta em suas falas. “Santo Homem”, assim mesmo, com letras maiúsculas, é constante quando fala sobre o presidente, praticamente não o chama pelo nome. É constante o uso de adjetivos que canonizam Tancredo. Vale lembrar que antes da institucionalização da Canonização pela Igreja Católica, os santos eram escolhidos e aclamados pelo povo (influenciados ou não). Pela maciça presença do povo no cortejo e pelas conversas dos personagens, parece mesmo que houve uma “canonização popular” do Santo Tancredo de São João Del Rei.
Mas o que dizer do dia da morte do Santo Homem?
21 de abril de 1792, dia da morte de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, “Mártir da Independência”, nascido numa vila na região de São João Del Rei, em Minas Gerais. 21 de abril de 1985, dia da morte de Tancredo de Almeida Neves, que, na boca da senhora do cabelo azul, também foi martirizado. O martírio implica morrer por uma causa, por um ideal. Por qual causa morreu Tancredo? Pela democratização do país? Pela doença que se apossou de seu corpo próximo à sua posse? Ou por algo que ainda não está bem esclarecido, como pensam alguns daqueles que vivenciaram aquele período? O Arquiteto parece duvidar desta suposta santidade e deste martírio.
O mito pode ter também o objetivo de criar uma identidade nacional. Tiradentes é aquele que representa o ideal brasileiro de luta contra a exploração, em favor dos direitos do homem. Sua imagem foi por muito tempo associada à outra imagem bem difundida na cultura ocidental, a de Jesus Cristo, com barba e cabelos longos. Esta imagem de Tiradentes era propagada – e talvez ainda seja – nos livros de História das escolas brasileiras. Por que associar a morte de Tancredo Neves à de Tiradentes? Talvez porque o Brasil precisasse de um mito naquele momento em que tentava sair da escuridão da Ditadura Militar. Para o Arquiteto, as comemorações aconteceriam juntas para que uma desse mais força à outra.
Coincidência ou não, seu cortejo (que ocorreu no dia 22 de Abril, uma segunda-feira na qual se passa o conto, data do descobrimento ou achamento do Brasil) passou por ruas de nomes significativos na cidade de São Paulo, enquanto era conduzido ao Aeroporto de Congonhas: Avenida Brasil, Monumento às Bandeiras, Rua Pedro Álvares Cabral, Obelisco aos Mortos de 32 (homenagem aos mortos na Revolução Constitucionalista de 1932). “Tudo são datas e nomes por esses lados do mundo”, diz o Arquiteto. Talvez por ser instruído, conseguisse perceber a dimensão destes signos naquele momento. Mas para o Consertador de Tudo, “Deus quis!”.
Aliás, para ele, tudo está envolto numa aura sacra. Os boletins informando sobre a saúde do presidente são como, no rádio, a hora da Ave-Maria. Quando segue rumo ao cortejo, imagina o Santo Homem reinando entre os anjos. Antes de Tancredo se destacar na imprensa, era o período em que “ninguém sabia de sua santidade”. Suas imagens nas fotos mostravam seu olhar diferente, mas “não se sabia ainda que era santidade”. Os adjetivos que canonizam o presidente aparecem por aproximadamente trinta vezes, de diversos modos, como que para mostrar qual era a visão do povo sobre ele.
Mas por que a visão do Consertador de Tudo pode ser associada à visão do povo? Ele é apresentado como uma espécie de estereótipo do trabalhador brasileiro. É um trabalhador informal, para o qual nem mesmo um feriado nacional é motivo para descanso; mora num bairro simples, na Vila Uberabinha, e usa macetes para “subir na vida”, dizendo que mora “para os lados de Moema”, uma das regiões nobres da cidade de São Paulo. É aquele que, para sobreviver na grande cidade, faz todo tipo de serviços, todo tipo de consertos. Não se sabe ao certo sua idade. Ora parece mais novo, ora mais velho; coisa comum entre as pessoas que batalham diariamente pela sobrevivência e não tem tempo para si, em um mundo onde outros da mesma idade cuidam da saúde e da aparência. Realmente, quantos anos ele tem? Qual é seu nome? Essa ausência de identidade o identifica com milhares de brasileiros que são nomeados simplesmente pelo que fazem. O Arquiteto, que também não tem nome, o chama de “uma pessoa” quando recebe a visita do vizinho, que teve a honra (ou não) de ter a “voz nomeada”, Rodolfo.
Arquiteto e Consertador de Tudo são aqueles com quem podemos nos identificar: ora com um, ora com o outro. Ora com os dois. Eles denotam a identidade do brasileiro, aquele que tem sua opinião massificada pela mídia e aquele que duvida da mesma. Aquele que acredita no que ouve e aquele que cria uma história para alfinetar o preconceito do vizinho racista. Aquele que se une ao povo para ver o cortejo do mártir passar e dizer que foi testemunha ocular e aquele que assiste de casa, pela televisão, porque o ângulo é melhor.
Os personagens parecem retratar cada brasileiro, com seu modo de agir, de ver a vida e sua posição na sociedade, com características genéricas, mas que até hoje marcam tipos: o Consertador de Tudo, sua mulher, o Arquiteto, a senhora do cabelo azul e o vizinho. Cada um, à sua maneira, demonstra uma reação diante do fato nacional. Entre a senhora e o Tudo, há um sentimento de fraternidade criado pela morte de Tancredo (ou pela morte que a mídia criou de Tancredo), que ocasionou uma comoção nacional: “uma mulher com a qual ele nunca pudera imaginar que haveria de estar passeando pelo Ibirapuera, conversando, ela devia ter saído de um dos casarões da própria avenida”, e não da Vila Uberabinha, portanto não pertenciam à mesma classe social.
Talvez a ausência de nomes se dê porque os nomes não podem explicar tudo o que contêm. Os adjetivos tentam fazer este trabalho, mas não dão conta. Não de modo completo. Substituir o nome da pessoa pelo que ele faz ou por qualificações é um modo de talvez tentar conter dentro do signo, com seu significado e significante, aquilo que ele representa no contexto social. Provoca um afastamento do personagem como único para a entrada num universo maior, como no caso da mulher do Tudo, que aparece poucas vezes, mas também retrata tantas outras mulheres do lar que apenas servem a seus maridos. Que coisa dói dentro do nome que não tem nome que conte nem coisa pra se contar?, já disse Leminski.
A mídia mitifica e nomeia; mostra a vida como é e como não é, mas também como poderia ser. Mostra fato, mostra foto, mostra cortejo, mostra gente, mostra e mente. Mostra Consertador, mostra Arquiteto, mostra Tancredo, mostra Xuxa, mostra Pelé. E se houvesse televisão na época de Tiradentes, será que tudo seria diferente?"

Abraços e boa semana!

3 comentários:

  1. Pode-se comparar este texto a alguns do Bom Velhinho, mais conhecido nas bocas como Antonio Candido!

    O caminho está sendo trilhado, e muito bem... continue assim!

    Beijo.

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  2. Amei seu blog!!
    Você escreve de uma forma sutil que nos remete a vários cenários e isso é bom, bom demais.
    Adoro seus posts e leio sempre que posso.

    Continue nesse caminho que nos encanta e te faz brilhar.

    Beijo amiga.

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