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Ridiculamente humana


"Se amar é fantasia, estou em pleno carnaval", dizia Vinícius de Moraes. Eu odeio o carnaval, mas vivo fantasiada, segundo Vinícius. Em meu misto de tédio, ódio e amor, sou ridiculamente apaixonada pela vida. Odeio e amo pessoas; alguém já disse que amor e ódio são duas faces da mesma moeda. Acho que esse alguém tem razão. Adoro o ócio, mas não consigo ficar um minuto parada e, como mulher ridícula que sou, faço várias coisas ao mesmo tempo. Enquanto escrevo este texto, estou assistindo a um filme, de ouvido ligado esperando a máquina de lavar parar para estender as roupas no varal e, enquanto espero uma luz do que escrever, vou dobrando as roupas já secas que acabei de recolher. Nunca disse que meu sonho é que gostaria de ter nascido na Idade Média e ser monge copista? Pois está dito! Mas nasci mulher, no século XX. Uma mulher ridiculamente perturbada e confusa, que ainda não sabe o que quer da vida, que apenas vive. Imersa num mundo de perguntas sem respostas e que deseja apenas escrever. E ler. E que acredita que um dia alguém irá ler o que escreveu. Já escrevi poesias e cartas de amor. Já fiz músicas que se perderam. Já li livros dos quais não me lembro. Tenho gostos duvidosos, mas são meus gostos. Ah... adoro futebol. Bem... abaixo está uma poesia ridícula de Fernando Pessoa. Um dia criarei coragem de colocar as linhas que escrevi aqui neste blog. Por enquanto, só este ridículo poeta que tinha crise de personalidade. Ah, sou ridiculamente irônica! .. rsrs... Grande Pessoa!

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.) 

Todas as cartas de amor
Álvaro de Campos

A vida é poesia


Após um longo e tenebroso inverno, digo, verão, volto a escrever alguma coisa (in)útil neste meu blog. Ainda não decidi se compro um carro ou um bote, já que moro em São Paulo; talvez os dois... talvez nenhum... talvez apenas uma bóia, é mais barata. Mas vou sobrevivendo em meio ao caos com os mais de 10 milhões de outros seres vivos desta cidade.

Acho que ainda é tempo de falar de projetos para este ano. Aliás, em fevereiro, já podemos perceber que nem tudo que planejamos para 2010 dará certo. Um mês já se passou e aquele regime, os exercícios, os estudos que iríamos começar em janeiro até agora não deram sinal de vida. Não façamos planos (façamos, mas não os falemos a ninguém), façamos de conta que tudo está sob controle, mesmo que não esteja.

Mas a vida é poesia e prosa. A vida é conto, é fábula. Quanto mais rápido se quer chegar, mais tempo se perde. Quanto mais esperto achamos que somos, mais tombos levamos.

Aprendi uma coisa em um curso que fiz não sei quando nem onde: "Todo mundo chega junto", aqui em São Paulo, principalmente. Não acredita? Experimente ultrapassar a senhorinha que está à sua frente de carro, andando a 20km/h em uma avenida movimentada. Mais à frente, você irá parar no semáforo. Adivinhe quem irá parar ao seu lado? Isso mesmo, a senhorinha. TODO MUNDO CHEGA JUNTO! Este deveria ser o mantra dos paulistanos!

Bem, chega de blá, blá, blá. Quero apenas deixar um poema de Baudelaire que talvez vocês já conheçam, mas que vale a pena ser lido novamente. Abaixo deixo também uma música que gosto muito.
Desejo a todos um excelente mês de fevereiro.



A uma passante


A rua ensurdecedora ao redor de mim agoniza.
Longa, delgada, em grande luto, dor majestosa,
Uma mulher passa, de uma mão faustosa,
Soerguendo-se, balançando o festão e a bainha;
Ágil e nobre, com sua perna de estátua.
Eu, embevecido, inquieto como um extravagante,
Em seus olhos, o céu lívido onde se oculta o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que destrói.
Um clarão... depois a noite! - Beleza fugidia
Cujo olhar me faz subitamente renascer,
Não te verei senão na eternidade?
Alhures; bem longe daqui! Muito tarde! Jamais talvez!
Pois ignoro onde tu foste, tu não sabes onde vou,
Ah se eu a amasse, ah se eu a conhecesse!
(Tradução de Marco Antonio Frangiotti. In Baudelaire: Oeuvres Complètes)




Só tinha de ser com você - Elis Regina