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Olhos de Ressaca

"Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma.Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas.
As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã."

(Machado de Assis. Dom Casmurro. Capítulo 123)


Amor é fogo que arde sem se ver - Luís Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é solitário andar por entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Soneto da Separação - Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Centenário de Vinícius de Moraes

Poeta, meu poeta vagabundo... se todos fossem iguais a você...
Hoje o Brasil celebra o centenário do nascimento de Vinicius de Moraes. Aqueles que desejam conhecer um pouco mais sua vida e obra, acessem o site oficial.
Gostaria apenas de colocar aqui mais um poema do poetinha, de quem sou fã, principalmente dos sonetos.









Soneto da Rosa

Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.

E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, e agora

Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude

Para que o sonho viva da certeza 
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.



E claro, como não poderia faltar, um vídeo do poetinha cantando o Samba da Bênção!



Simplicidade no falar - G. K. Chesterton


Trecho extraído do livro Ortodoxia, de G. K. Chesterton. Editora Mundo Cristão, p. 206-207.


A maior parte do mecanismo da linguagem moderna visa a poupar trabalho; e poupa muito mais trabalho mental do que deveria. Frases científicas são usadas em rodas e pistões científicos para tornar ainda mais rápido e mais suave o caminho do conforto. Palavras compridas passam por nós chacoalhando como longos trens ferroviários. Sabemos que carregam milhares de pessoas que se sentem demasiado cansadas ou indolentes para caminhar e pensar por conta própria.

É um bom exercício tentar, de vez em quando, expressar as próprias opiniões com palavras de uma ou duas sílabas. Se você disser: “A utilidade social da frase indeterminada é reconhecida por todos os criminologistas como parte de nossa evolução social buscando uma visão mais humana e científica da punição”, você pode continuar falando assim por horas sem que haja nenhum movimento da massa cinzenta no interior do seu cérebro. Mas se você começar dizendo: “Eu queria que Jones fosse para a cadeia e que Brown dissesse quando Jones vai sair de lá”, você vai descobrir, com um calafrio de horror, que você é obrigado a pensar.

As palavras compridas não são as palavras difíceis. Difíceis são as palavras curtas. Há muito mais sutileza metafísica na palavra “dane-se!” do que na palavra “degeneração”. 

Mas essas longas e confortáveis palavras que poupam aos modernos o trabalho do raciocínio têm aspecto particular em que elas são especialmente desastrosas e confundem. Essa dificuldade ocorre quando a mesma palavra comprida é usada em contextos diferentes para significar coisas totalmente diversas. Assim, para dar um exemplo muito conhecido, a palavra “idealista” tem um significado como termo de filosofia e outro totalmente diverso como termo de retórica moral. Da mesma forma, os materialistas científicos queixaram-se recentemente, com razão, de quem confunde o termo “materialista” como termo de cosmologia com “materialista” como um insulto moral. Assim, para dar um exemplo mais comum, o mesmo homem que odeia os “progressistas” de Londres identifica-se como “progressista” na África do Sul.

Memória ou Lembrança? - Uma tentativa de análise de “Funes, o memorioso”, de Jorge Luis Borges


Elaborado por Janete Campos e Aida Loebenberg



São apenas imagens colhidas com extraordinária rapidez, dispostas como em compartimentos, onde admiravelmente são extraídas pela lembrança.
Santo Agostinho, “Confissões”, Livro X, 9



Nada do que foi ouvido pode ser devolvido pelas mesmas palavras.
Plínio, o velho, “Naturallis Historia”,
Livro VII, capítulo XXIV




Recordar - trazer à memória, lembrar-se.
Lembrar - recordar-se.
Memória - capacidade de lembrar; recordação.

A circularidade das definições fornecidas pelo dicionário Houaiss nos remete à quantidade de vezes que essas mesmas palavras estão presentes em “Funes, o memorioso”, de Jorge Luis Borges[1]. Já a primeira palavra após o título é “recordo”, com o narrador em 1ª pessoa questionando o seu “direito de pronunciar esse verbo sa-grado, (pois) só um homem na Terra teve esse direito e esse homem morreu”. Este “homem” é Funes, personagem sobre quem versa o conto, um “compadrito de Fray Bentos”, mas também um “Zaratustra xucro e vernáculo” como o poeta uruguaio[2] Pedro Leandro Ipuche o teria nomeado.

Recordar é a forma que nosso narrador encontra para cumprir uma tarefa a ele solicitada: escrever sobre uma pessoa que conheceu em sua juventude e que se destacava em meio aos demais moradores de um lugarejo uruguaio que faz fronteira com a Argentina[3]. Para abordar o passado no tempo presente, acompanhamos inicialmente nosso narrador recordando alguns detalhes de (ou sobre) Funes: “segurando uma sombria flor-da-paixão”[4], da “cara de índio taciturna e singularmente remota, atrás do cigarro”; de “suas mãos afiladas de trançador”; “de uma cuia de mate”, “na janela da casa uma esteira amarela, com uma vaga paisagem lacustre” e “claramente a voz dele”. O mesmo verbo ainda aparecerá mais adiante, para recordar “a bombacha, as alpargatas (...) o cigarro no duro rosto” e “a impressão de incômoda magia que a notícia (do acidente de Funes) produziu em mim”. Por nove vezes a palavra “recordo” aparece como uma ação do narrador, enquanto em apenas duas ocasiões o mesmo verbo é usado como uma ação do nosso memorioso: “recordava nosso encontro, infelizmente fugaz, ‘do dia 7 de fevereiro do ano 84’” e “Funes não apenas se recordava de cada folha de cada árvore de cada morro, mas ainda de cada uma das vezes que a tinha percebido ou imaginado” — duas recordações precisas de nosso herói em face às nove recordações vagas do narrador.

O segundo parágrafo do conto começa com o narrador lembrando a primeira vez que encontrou Funes, quando ele e seu primo voltavam da estância de São Francisco a cavalo, tentando escapar de um temporal, e Funes precisou o horário (“faltam quatro minutos para as oito”) e o nome completo do primo questionador. Ao relembrar o episódio, o narrador se diz “tão distraído que o diálogo não teria chamado (sua) atenção se não o tivesse repisado (seu) primo”. É também um cavalo, na mesma estância de São Francisco, o pilar da mudança na vida de Funes: ao ser derrubado, fica paralítico e passa a ter uma memória prodigiosa, capaz de perceber 

todos os brotos e cachos e frutos que uma parreira possa conter. Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do dia 30 de abril de 1882 e podia compará-las na lembrança com os veios de um livro em papel espanhol que ele havia olhado uma única vez e com as linhas de espuma que um remo levantou no rio Negro na véspera da Batalha de Quebraço,

Essa “percepção e memória infalíveis” são diametralmente opostas às do narrador, que além de se chamar distraído e de questionar se pode usar o verbo recordar, ainda coloca que não vai “tratar de reproduzir as palavras dele (Funes), irrecuperáveis agora” e que prefere “resumir com veracidade as muitas coisas que Ireneu (...) disse”. Talvez seja o momento de levantarmos alguns pontos que aproximam e/ou distanciam Funes e o narrador.

Funes é um excelente exemplo de memória. Mesmo antes do acidente ele já tinha um certo “algo a mais” que a maioria das pessoas, sendo capaz “de saber sempre a hora, como um relógio” e da “sua memória dos nomes próprios”. Apesar disso, após o acidente o próprio Funes julgava que anteriormente era “um cego, um surdo, um aturdido, um desmemoriado”, que durante “dezenove anos tinha vivido como quem sonha”, Para ele, o acidente quase foi um milagre, pois então “sua percepção e sua memória (se tornaram) infalíveis”, chegando a declarar: “eu sozinho tenho mais lembranças do que terão tido todos os homens desde que o mundo é mundo”, Mas, na verdade, Funes “acumula” informações, quase sendo possível um paralelo com um HD de computador, isto é, o cérebro de Funes seria um aparelho capaz de armazenar quantidades cada vez maiores de informação pura. Além de guardar detalhes de qualquer imagem que visse, ele “tinha aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim”. Ele citava os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis historia, de Plínio, e “se maravilhava de que tais casos pudessem maravilhar”, pois para Funes sua memória era algo natural, nada que pudesse fazer dele “um precursor dos super-homens”, como teria sugerido Pedro Leandro Ipuche[5]. Aliás, o próprio Funes afirma que “minha memória, senhor, é como um monte de lixo”, muitas e muitas informações guardadas em estado puro, sem processamento, pois Funes é incapaz de condensar e selecionar essas informações. Ele se furta até ao sono, pois, para ele, “dormir é distrair-se do mundo”. Ele é “o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente preciso”. Como comenta o historiador Antonio Mitre: 

no cabe duda que Ireneo lleva ventaja en aquello que ha sido, desde siempre, la ambición de todo historiador: la fijación y el registro exhaustivo del acontecimiento singular.[6]

Mas o mesmo Mitre questiona a validade dessa “ambição”: 

la historia de Funes el memorioso contada por Jorge Luis Borges, es el más perfecto ejemplo de una vasta memoria replicante que, convertida en espejo, pierde su capacidad de abstracción y, en una suerte de amnesia al revés, pulveriza la noción de sujeto e imposibilita la comprensión del pasado.[7]

Em compensação nosso narrador tem lembranças, recordações. Como a maioria das pessoas, seu cérebro é como o “bloco mágico” que Freud compara ao nosso aparelho mental: conta com uma camada que recebe os estímulos, mas nem todos estes estímulos formam traços permanentes em nosso cérebro[8]. Como as demais pessoas, nosso narrador tem lembranças do que viveu, mas lembranças que são esquecidas e, subsequentemente, reelaboradas, como os sonhos são reelaborados a partir do material dos pensamentos oníricos, com deslocamentos e condensações. O narrador precisa que seu primo “repise” o diálogo ocorrido no seu primeiro encontro com Funes como auxílio à sua memória, assim como quando seu primo conta sobre o acidente com o cavalo, o narrador comenta que “o fato, na boca de meu primo Bernardo, tinha muito de sonho elaborado com elementos anteriores”. Como as demais pessoas, nosso narrador reflete, questiona e tira conclusões sobre os fatos presenciados e/ou que ouviu serem contados. Nosso narrador pensa. Ao mesmo tempo levanta dúvida se Funes teria essa mesma capacidade: “Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo entulhado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos”. O narrador parece dizer que Ireneo é incapaz do movimento intelectivo que os seres humanos “comuns” fazem ao resgatar uma memória. Devemos lembrar que conhecimento não significa inteligência. O conhecimento se adquire por meio de in-formações, seja por experiências vividas pelo sujeito, seja por estudos. Já a inteligência é a capacidade de raciocínio lógico, de interpretação de informações. Quando o narrador diz que Funes “pensou”, na sequência pontua entre parêntesis “sentiu”, ou seja, para o narrador Funes não pensa, apenas adquire conhecimentos por meio dos sentidos, daquilo que é sensível. 

O que corrobora esta visão pode ser verificado nas páginas 106 e 107, quando o narrador questiona o novo método de numeração proposto por Funes, dizendo que não havia conexão entre os termos que ele utilizava para contar e que o sistema numérico tradicional era um sistema ordenado de forma lógica. Conclui o narrador que “Funes não me entendeu ou não quis me entender”.

Um pouco mais adiante, o narrador diz que Funes “era quase inca-paz de ideias gerais, platônicas”. Aqui podemos citar a diferença filosófica entre o conceito de ideias gerais e ideias específicas — para Platão as ideias gerais são aquelas que pertencem ao mundo inteligível, ao Mundo das Ideias; esta sua teoria (que pode ser vista de modo completo em seu Diálogo Fédon[9]) diz, de modo geral, que temos em nossa mente uma ideia geral de todas as coisas, uma espécie de “modelo padrão”. Quando alguém nos diz “cadeira”, este modelo já vem à nossa mente; porém, se o modelo que vemos não é o mesmo que está em nossa mente, mesmo assim é possível reconhecermos uma cadeira por causa deste modelo padrão. O narrador explica a dificuldade de Funes de entender o “símbolo genérico cachorro”, que pode ser explicado pelo modelo platônico do mundo das ideias. Podemos dizer que para Funes haviam apenas as ideias específicas, os detalhes. Apenas isto entrava em sua mente. Se para o narrador “pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair”, levando em consideração as ideias platônicas, para se chegar a uma ideia específica, é necessário primeiro abordar as ideias gerais, os princípios que regem o universo, o cosmos para, a partir deles, especificar os problemas humanos; tudo isto envolve um movimento intelectivo e não apenas o acesso a informações armazenadas.

Memória ou lembrança? Conhecimento ou inteligência? Em qual destes conceitos nosso ilustre e “cronométrico” Ireneo Funes se enquadra? Ou não se enquadra em nenhum? Nosso narrador dá pistas, mas conclui dizendo apenas que ele “morreu em 1889, de uma congestão pulmonar”. Talvez deixe para nós a avaliação desta “implacável memória” que um dia pode conhecer.

NOTAS:
 1 BORGES, Jorge Luis (s/d). FUNES, O MEMORIOSO. IN Ficções (1944). São Paulo: Companhia das Letras, 3ª reimpressão. Todas as citações da referida obra doravante serão marcadas apenas pelo sobrenome do autor, seguido da página onde se encontra o fragmento, de acordo com esta mesma edição. Ex.: Borges, p. 99.
2 Fonte: http://www.biografiasyvidas.com/biografia/i/ipuche.htm.
3 Fonte: http://es.wikipedia.org/wiki/Fray_Bentos.
4 Flor-da-paixão ou flor do maracujá que, na crença geral, foi criada para per-petuar a lembrança do sacrifício de Jesus no calvário. (Fonte: http://www.jardimdeflores.com.br/CURIOSIDADES/A34nomemaracuja.htm)
5 “Super-homem” é um termo originado do alemão Übermensch, descrito no livro Assim falou Zaratustra, do filósofo Friedrich Nietzsche, em que explica-se os passos através dos quais um homem pode se tornar um “super-homem” (homos superior).
(Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Super_Homem_(filosofia))
6 MITRE, Antonio (2001). HISTORIA: MEMORIA Y OLVIDO. IN Historia y Cultura, no 27 Noviembre, Sociedad Boliviana de Historia, p.04.
(Fonte: http://www.cholonautas.edu.pe/modulo/upload/Mitre.pdf)
7  Op. Cit. p.03
8 FREUD, Sigmund (1925[1924]). UMA NOTA SOBRE O BLOCO MÁGICO. IN O ego e o ID e outros trabalhos. Edição Standard Brasileira, Vol. XIX, IMAGO Editora.
9 Platão, Fedão
(Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000031.pdf).

Complexo de vira-latas - Nelson Rodrigues



Este texto foi publicado na revista Manchete esportiva, em 31 de maio de 1958. Nelson Rodrigues era colunista desta revista e a crônica foi feita antes da estreia do Brasil na Copa do Mundo de 1958.
O texto, escrito há mais de 50 anos atrás, ainda vale muito para a reflexão dos brasileiros. Acho que ainda temos muito desse "complexo de vira-latas".



Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: - "O Brasil não vai nem se classificar!". E, aqui, eu pergunto: - não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?
Eis a verdade, amigos: - desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor de cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse "arrancou" como poderia dizer:
- "extraiu" de nós o título como se fosse um dente.
E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: - é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: - o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: - se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.
Mas vejamos: - o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, "não". Mas eis a verdade: - eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: - sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: - não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.
A pura, a santa verdade é a seguinte: - qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: - temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de "complexo de vira-latas". Estou a imaginar o espanto do leitor: - "O que vem a ser isso?". Eu explico.
Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no fute- bol. Dizer que nós nos julgamos "os maiores" é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate.
Pois bem: - e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: - porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: - o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática.
Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: - para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.


Nelson Rodrigues. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Cia. das Letras, 1993.

Dica de leitura: Hereges, G. K. Chesterton



Nesta excelente obra Chesterton “abre fogo” contra aqueles a quem ele chama de “hereges”. Explica o autor que herege é “um homem cuja visão das coisas tem a audácia de diferir da minha”. Autores renomados, como Bernard Shaw, Lowes Dickinson, H. G. Wells, entre outros, são os alvos da metralhadora de chestertoniana. É um misto de crítica literária e reflexões filosóficas acerca de vários assuntos de interesse humano, publicado pela primeira vez em 1905.

Mas claro que não basta apontar e atirar contra os hereges; é necessário, antes disso, investigar e levantar os pontos contraditórios do discurso falacioso. E é basicamente isso o que Chesterton faz. Cada capítulo é um texto independente, onde o autor explora os pontos “heréticos” do autor analisado e expõe suas considerações sobre o assunto.
Um dos capítulos que merece destaque é “Os celtas e os celtófilos”, onde Chesterton mira no falso espírito nacionalista inglês que, na luta contra os irlandeses, invocam sua formação racial. Um texto que cabe em qualquer época, inclusive em nossos dias, apontando a loucura deste discurso que beira a eugenia, e que assume uma forma de um deus, pelo qual apenas lunáticos se sacrificam:

"Quanto ainda resta do sangue dos anglos e saxões (quem quer que sejam) na mesclada linhagem dos ingleses, romanos, alemães, dinamarqueses, normandos e picardos é uma questão que interessa aos mais desvairados antiquários. E quanto desse sangue diluído possa ainda restar no vibrante redemoinho norte-americano, em que uma torrente de suecos, judeus, alemães, irlandeses e italianos está em perpétuo jorro, é um assunto que só interessa a lunáticos. A classe governante inglesa teria sido mais sensata caso recorresse a algum outro deus. (...)"

O tema da família também é abordado por Chesterton no capítulo “Alguns escritores modernos e a instituição da família”. Sem utilizar o discurso tradicional e, por vezes, piegas, em defesa da família, Chesterton aponta para a função social deste núcleo de pessoas. Critica os que atacam erroneamente a família e os que a tentam defender e proteger de forma também errônea. Infelizmente, certos tipos de discurso, por mais verdadeiros que sejam, não são convincentes para uma sociedade moderna. É preciso manter o ideal e remodelar o discurso para atingir resultados com mais eficiência.
Muitos pontos merecem destaque, porém tirariam o prazer da leitura leve e fluida proporcionada pelo escritor. Chesterton parecia escrever rindo, pois é possível notar, de modo claro, seu bom humor e ironia, marcas características de sua personalidade e fato sobre o qual recebeu críticas do Sr. McCabe, a quem dedica o capítulo “O Sr. McCabe e a divina futilidade”.

Tradução utilizada: Hereges – Ed. Ecclesiae – 2011.

Dica de Leitura: De Trinitate, de Santo Agostinho

A obra De Trinitate deste grande santo doutor da Igreja, aborda uma questão central da fé cristã: a crença que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um único Deus.  É importante ter em mente que o objetivo de Agostinho é combater as heresias de seu tempo, sendo que as principais eram o Arianismo e o Sabelianismo (ou Modalismo).

Como "bons hereges", Ario e Sabélio eram muito instruídos nas Sagradas Escrituras; suas heresias eram bem embasadas em passagens dos Evangelhos. Por que este fato é importante? Porque Agostinho irá estruturar sua obra de modo a quebrar esquematicamente essas teorias. Vale lembrar também que essas heresias eram realidades muito presentes entre os primeiros cristãos, sendo um grande desafio afirmar que Deus é Uno e Trino. Superadas as perseguições, são os problemas de ordem interna, de doutrina, que começam a preocupar os cristãos.
A obra De Trinitate é composta de quinze livros que podem ser divididos em dois grandes blocos:
1) do livro I ao VII, onde Santo Agostinho irá fazer uma defesa exegética e hermenêutica da doutrina da Trindade. Como bom retórico, irá apontar os trechos das Sagradas Escrituras que são usados pelos hereges e, com as próprias escrituras, irá apontar as falhas destes e as evidências da Trindade. Do livro I ao IV há um movimento lógico no texto, uma busca por “vestígios” de Deus nas escrituras. O santo cita as Teofanias do Antigo e Novo Testamentos. Do livro V ao VII, temos a análise agostiniana do “homem interior”. É o segundo grande momento lógico da obra, onde temos a investigação das dimensões do homem interior. Entra também no debate sobre o que é substância e natureza e garante que não há relação de subordinação na Trindade.
Considero importante nesta primeira parte o destaque que Agostinho dá para o conhecimento da Palavra como um todo. Ele aceita que um mesmo trecho possa apresentar mais de uma hermenêutica válida, porém elas devem ser somadas umas às outras, e nunca contraditórias.
O livro VIII é um divisor de águas, onde Agostinho procura encontrar os vestígios de Deus no interior do homem. Destaca a importância da caritas, pois é ela quem move o homem em sua busca por Deus. A aproximação de Deus se dá por meio da semelhança que temos com ele.
2) do livro IX ao XIV encontramos um exercício de purificação. Agostinho começa a buscar vestígios da imagem Trinitária no ser humano, sendo a principal tríade a memória, a inteligência e a vontade.
O livro XV é uma retomada dos assuntos abordados, uma espécie de resumo e conclusão.
É uma obra densa, que exige esforço para compreensão e também um pouco de conhecimento do pensamento agostiniano, mas um esforço que vale a pena ser empreendido, dada a riqueza de conhecimentos que nos traz.





Características da arte moderna no início do século XX e suas ressonâncias no modernismo brasileiro


Incômoda, estranha e nauseante. Desfigurada, surpreendente e desumanizada. Estes e vários outros adjetivos da mesma natureza podem ser utilizados para "definir" a arte produzida no início do século XX. Por vezes chocante e extremamente provocativa, a Arte Moderna surge como uma resposta ou mesmo um questionamento - muitas vezes não compreendido - a um mundo onde o ser humano procurava fazer de si mesmo a referência e o modelo de todas as coisas. A perspectiva é destruída; o retratismo não tem mais lugar; o ser humano, dividido e fragmentado, já não consegue reconhecer-se e percebe que não pode mais considerar-se como medida de todas as coisas. Esta fragmentação do ser humano pode ser compreendida se levarmos em conta as três feridas narcísicas de que fala Freud: 1) A Terra não é o centro do universo (conf. Copérnico e Galileu); 2) A teoria do evolucionismo de Darwin; 3) A psicanálise e os estudos do próprio Freud, que declara que "o ego não é senhor em sua própria casa". Estas feridas mexem profundamente com o ser humano, fazendo com que a visão antropocêntrica não faça mais sentido ou que, ao menos, não seja a única lente com a qual se deva enxergar o mundo.

No campo das artes, não há mais o interesse em identificar o objeto real com seu retrato; o que é levado em conta são as formas, a estética, "a arte pela arte". As referências são relativizadas e não há mais valores seguros, por isso a arte se apega a si mesma. À desconstrução das formas, seguem-se também outras novas concepções, principalmente no campo da literatura: a perda da perspectiva gera perda de continuidade, eliminando a sucessão temporal e destruindo o espaço; as emoções são relativizadas; o senso comum é desmascarado. Segundo Anatol Rosenfeld, "a dificuldade que boa parte do público encontra em adaptar-se a este tipo de pintura ou romance decorre da circunstância de a arte moderna negar o compromisso com este mundo empírico das 'aparências', isto é, com o mundo temporal e espacial posto como real e absoluto pelo realismo tradicional e pelo senso comum". Já para Ortega y Gasset, esta "impopularidade", para utilizar um termo do próprio crítico, se deve ao fato de que esta nova arte divide as pessoas em duas classes: "os que a entendem e os que não a entendem". E Ortega continua: "A nova arte, pelo visto, não é para todo mundo, como a romântica, e sim vai desde logo dirigida a uma minoria especialmente dotada". Concordando ou não com este autor, o fato é que até hoje esta arte ainda é incompreendida e criticada por muitos.

Já no Brasil, o modernismo começa a dar sinais no período chamado Pré-Modernismo, que vai do início do século XX até a Semana de Arte Moderna, de 1922, onde as obras começavam a destoar das tendências oitocentistas, mesmo que ainda fossem herdeiras desta. A partir desta semana, que aconteceu entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, os modernistas tentaram romper com as formas tradicionais de arte que se perpetuavam há muito tempo. As iniciativas de renovação artística começaram no início do século XX, como por exemplo com a polêmica exposição de Anita Malfatti. Podemos dizer que a Semana de Arte Moderna deu início a uma "fase heroica" no modernismo brasileiro, com sua "estética da reação" (para utilizar uma expressão de Ronald de Carvalho); foi influenciada pelas vanguardas europeias e se caracterizou por sua rebeldia e por romper com a arte tradicional.

O modernismo no Brasil se apresentou em fases. Na primeira, a principal preocupação era a defesa da liberdade temática, o nacionalismo cultural e linguístico. Desta fase podemos destacar Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Manuel Bandeira. A segunda fase, herdeira das rupturas ocorridas na primeira, buscou retomar os elementos da tradição literária e mergulhou por outros temas, como o aprofundamento sobre a própria poesia, novas formas de representar o amor, a morte e o tempo. Podemos destacar deste período Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, entre muitos. Há também os chamados "poetas da Geração 45", ou terceira fase do modernismo, como alguns autores a chamam. Alguns consideram conservadora a produção deste período. Muitos movimentos apareceram neste período, como a arte concreta. Podemos citar deste período Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto, entre outros.

(Texto escrito por mim em junho/2010).